Gemido pode, se for baixinho. Nua ainda não, mas desnudada contra o vento, no canto do olho apaixonado, quem sabe. Regras deste tipo eram mania dela desde que a vi, de rosto virado pro chão, pisando com cuidado sobre as pedrinhas brancas, no desenho composto da calçada. Pra dar sorte, dizia ela, mas eu pensei: isso não vai dar certo. Quem deu sorte acho que fui eu e agora tento, do jeito que posso, transgredir suavemente o rígido código moral dela. No rosto pode, no lábio mole a língua discreta, oculta no largo da aba, descendo pescoço abaixo pela estampa filtrada da palha, ai, assim não. Na nuca ainda não. Na curva da noite quem sabe, se a luz não fosse tão clara… Pelo dorso adentro meu braço na cintura dela, eu mal me agüento mas finjo que aceito flanar por enquanto na sombra dela, o corpo me delata e toca o flanco, branco, preto, branco eu brincando com a sorte de tê-la conhecido, provando o doce e faminto hálito dela ali, gemendo, aiai, se for baixinho pode.
O amor, como a prosa, não tem regra nenhuma. E aparece até no tombo, foi, com essa mania de rosto pro chão, claro, uma obsessão sempre exclui as demais, contando os passos preto no branco ela esbarrou na mesa, derrubou meu chope e aterrissou no meu colo cansado que ao peso ondulante dela se enrijeceu, se lembrou, gritou de desejo no meio do dia. Depois disso não teve mais chope, nem dama, nem carta jogada fora, o tempo encolhido no encontro, apenas o ponto dolorido do toque na queda abrupta dela, nem olhar a bem da verdade teve. Foi preto no branco e eu virei outro, e agora isso pode, aquilo não pode, é por puro amor que se eu penso não digo, se eu quero não faço, se eu gozo não conto até que ela me abrace e me abra a cona, no apartamento apertado com vista pra praça, as cortinas baixadas e a cama desfeita, onde a gente pode tudo.