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Tenho saudades….

Agosto 13, 2008

(Pessoal, tomei a liberdade de postar mais um artigo sobre este fantástico tema…..esse artigo eu achei perdido nos meus arquivos de 2006, quando nem fazia parte deste grupo…lá vai)

 

Não sei qual é o verbo exato que deve acompanhar esta palavra tão densa. Quando tenho saudades também sou as saudades. Penso saudades, sinto saudades. Vivo as saudades…respiro ar novo mas que nem por ser novo não deixa de estar contaminado por ela, a dolorida, ardida e incompreendida saudades. Parece que esta palavra é plural e ela realmente é. Sempre plural as saudades não sabem ser singulares.

Sempre que sinto saudades de um momento ou de uma pessoa, qualquer que seja o objeto, este vem direto de um sótão empoeirado onde memórias são guardadas. Vem também, entretanto de uma memória que se encontra em parte na cristaleira de cristais raríssimos localizada  perto do coração. Vem da sala onde guardo minhas músicas, próximo as orelhas quando dizem respeito às musicas ou ruídos de vento ou cachoeira. As saudades se espalham em pontos estratégicos do meu corpo. As vezes acredito que, em que pese eu ter uma forma que me faça ser identificável como eu mesma, cada fragmento de célula meu tem saudades específicas. Órgãos sentem saudades, chakras sentem saudades, pés sentem saudades.

Sinto tantas saudades de andar descalça de camiseta e shorts de malha no sítio. Pequena olhando o céu. Sinto saudades de colocar o uniforme nas manhãs frias de escola por mais detestável que isso fosse outrora. Sinto saudades do cheiro de roupa limpa da área de serviço. Da casinha de bonecas da minha prima na qual eu brincava incansavelmente.

Sinto saudades dos banhos de mangueira no verão, das ameixeiras amarelas do quintal. Saudades do lanche na lancheira e da fila do leite.

Saudades de quando fumar um cigarro era uma aventura que dava até tontura. Saudades de acordar para brincar nas férias.

As saudades são incontáveis pois fazem parte do conjunto infinito de que somos feitos…..

 

Melvis

12/2006

Ácidasaudades

Agosto 12, 2008

Palavra aberta, cheia de significados. Triste? Feliz? Um buraco no peito, uma falta. As saudades doem e doem e maltratam, degeneram. Saudades não tem remédio….é uma doença incurável, lancinante, cruel. É tão sarcástica a saudade que agora mesmo me pergunto se ela vai no plural ou no singular. Então as escrevo no plural, pois não há ser vivente na terra que nunca as tenham sentido. Há quem diga que existem as saudades boas, eu ando me convencendo do contrário. Elas existem porque a gente não aceita, não descarta, não digere. As saudades são arrotos de algo que se comeu antes……tenho as evitado de todos os modos. Elas chegam sempre quietas, andam na ponta dos pés, traiçoeiras. Parecem doces no início e quando a gente resolve ouvir o que elas tem para dizer assim, ao pé do ouvido….e elas sempre têm uma estória para recontar, elas dão o bote. As estórias das saudades sempre são coloridas o bastante para roubar a cor do presente. São sereias que cantam sedutoras, chamando os pescadores a se fartarem nos seus seios. Quando já não resistimos a seus encantos elas dão o golpe fatal e nos enternessem com o mel da melancolia, matando o presente, assassinando a presença. De hoje em diante só me entrego depois de muita luta. Quero de todo meu coração o presente que me circunda e me sustenta. Quero gozar de cada segundo de vida sugando cada miligrama de seiva, de ar, de mar e pretendo sinceramente ser consumida sim, mas pelo fogo do aqui e do agora. Amém.

 

este imenso bosque que é a paciência

Agosto 10, 2008

Peço a paz diariamente. A paz dos bosques floridos. A paz das mães que tem seus filhos no colo. A paz das crianças. Peço a paz dentro de mim. A paz dos lagos refletindo as árvores que os circundam. Peço a paz contida no presente. Dentro de mim uma grande obra em favor da paz. Dentro de mim uma ponte para a paz e outra para a guerra. Tudo dentro de mim. A guerra contida dentro de mim também em cantos recônditos. A guerra que emerge da guerra alheia, da guerra dos mundos em que eu vivo. A guerra, não a paz. Então eis que me vem este tema da paciência e me faz pensar e sentir e tatear as pontes, os caminhos, as trilhas, estradas e rodovias que levam à paz. Quantas desculpas eu dou diariamente para não cultivar este imenso bosque que é a paciência? De quanta intolerância se alimenta minha guerra? De quantas intolerâncias se alimenta a televisão? E a paciência, jardim secreto sempre tão presente ali e eu nos campos de batalha, cortando cabeças, principalmente minha própria. E então a grande ousadia do tema paciência se apresenta assim eterno, eterno, pois me parece que apenas os humanos não sabem cultiva-la. Até Deus e, sobretudo Ele é dotado de imensa paciência. Talvez assista todas essas vidas e mortes nossas de cada dia, sempre paciente, resignado e sorrindo das nossas angústias. Por pura paciência nos planta nesse chão, semeia, rega, nos enche de presentes lindos e aguarda sem qualquer ansiedade nossos frutos naturais, aqueles que virão quando finalmente o jardim da paciência estiver pronto para a colheita de gotas douradas de puro amor, de frutas doces como a jabuticaba e de frutas bonitas como os morangos.

Doce intimidade

Maio 1, 2008

Um olhar silencioso basta disse ela. Um olhar cúmplice define a intimidade de um casal. Nós temos nos falado muito, nos tocado muito e até discutido demasiadamente. Temos nos visto diariamente e deste diariamente há poucos momentos de intimidade. Nos deitamos nus na cama e nos abraçamos e dormimos para sonharmos com sonhos de intimidade. Estavam juntos há três anos. Moravam juntos há dois.
Ela na intimidade dela tão discretamente preservada a muito custo. Ela não era de se expor muito e detestava ser olhada porque a intimidade de uma pessoa se mostra em pequenos gestos distraídos. Ao mesmo tempo adorava saber intimidades alheias porque ali na intimidade se esconde o diamante ou o punhal que guardamos conosco.
Doroteia não buscava intimidade só com o marido, mas com tudo, com todos, com tudo o que se relacionava e como se relacionava com tudo a intimidade era fatal a ela. Numa conversa banal na porta do banheiro feminino ela buscava amigas com quem contar e saber pensamentos, anseios, lembranças, ideologias, tudo enfim que de intimo fosse.
Olhando para a laranja perfeitamente adaptada a seus dedos finos ela a levava ao nariz para cheirá-la. Era ávida pelo cheiro, pela essência das coisas. Depois a colocava em toda a sua glória dentro de sua boca e sua língua buscava sentir a textura da fruta. Fazia isso com todas as frutas.
Não conseguia fazer isso com o marido. Levá-lo à boca era de um sacrifício imenso. Ele resistia em exalar seu cheiro. Ela então vendo a hesitação dele, desistia de tocar com a boca e sentir com o nariz sua essência intima. Não que eles nunca tivessem sido íntimos. Eram no começo e exalavam um para o outro seu cheiro fértil e doce de frutas que anseiam por uma boca que lhes coma. O cheiro dos apaixonados. Agora que a intimidade era um propósito tudo havia se tornado mais denso e a busca daquele cheiro de amor cor de rosa era tensa, demorada e ela estava muito impaciente.
Mas não tem jeito, tudo conspira para que a paciência se revele em nós. Para que paremos de buscar o tal paraíso para nos darmos conta que já estamos nele. Um dia o marido chegou e a olhou diretamente no olho e os dois reconheceram que a intimidade sempre estivera ali, até na distancia dos corações. Mas olhando nos olhos dele ela sentiu cheiro de fruta novamente e mais um ciclo havia se completado. Até a lua se afasta da terra e esta do sol e até o universo se expande. Todas as vidas têm seu ciclo e nem sempre é época de fruta madura no pé. Basta reconhecer, basta reconhecer disse ela a si mesma, atordoada com a sabedoria de tudo. Nesta hora o cheiro de fruta dele exalou doce, doce de doer e ela o abraçou. O coração dele bateu alto e sim, não havia mais nada a buscar dali em diante.

E neste ir e vir de guerras dentro e fora de nós

Março 31, 2008

Eu sangro, tu sangras, ele sangra, todos sangram
então para que a guerra?
Este precioso líquido que nos preenche e é derramado inutilmente em batalhas sem ganhadores.
Este rubro líquido viscoso, visceral que pulsa dentro de cada um e que foge pela mínima ferida aberta. Este sangrar sagrado de cada ser ao corte ínfimo…
A dor do sangue derramado…
A lástima da ferida aberta…
As lágrimas translúcidas e inodoras de cada olho que chove
Limpam e diluem o sangue dos filhos da guerra
A lágrima de cada mãe, irmã, amada
A dor do peito frágil
A dor da falta
O sangue jorrado em vão a olhos vistos
Na hora da guerra o inútil trabalho de um corpo de toda a vida
O trabalho de crescer e de florescer
A possibilidade do florescimento desperdiçada pela brutalidade
E neste ir e vir de guerras dentro e fora de nós
Há de surgir algo belo
Algo novo
Nutrido pelo choro, pelo luto da morte
A flor rubra a imitar o sangue recheio humano
Há de curar o dilaceramento da perda
Amém

Aqui nasci mas não pertenço a esta cidade nem às suas calçadas

Fevereiro 19, 2008

Minha cidade é pequena, embora grande. Cheia de sons de buzinas e de outdoors. Dizem ser a mais organizada e de tão organizada é monótona durante a semana. Gosto especialmente das calçadas da minha cidade porque são amplas e quadriculadas e nelas cabem todos os passos de um ser humano. Sobre ela passam todos os urbanos e rurais. Passam pensamentos e camelôs. Passam as folhas de outono e as flores que caem amarelinhas e que quando pisoteadas soltam um odor doce e morno. Na minha cidade eu me criei dentro de um quintal durante a semana e aos domingos na feirinha do largo. Lá descobri os artesanatos e os artesãos. Descobri a arte de imitar a natureza sem medidas. A cidade me viu descobrindo sons e sabores dentro dela com suas milhões de gastronomias multiculturais. Na cidade vivi grandes amores e as maiores decepções na noite da cidade. Na cidade meu primeiro beijo, os primeiros amigos, as amigas, as mortes. Ali, atônita com as árvores da cidade eu me contatava com o universo todo mal sabendo que ele era tão mais absoluto e pleno do que eu acreditava. Aqui na minha cidade há gritos e há silêncios raros, raríssimos silêncios entre um sinaleiro que abre e outro. Caminhar por sobre a cidade me extasia quando descubro detalhes que jamais havia me atentado acerca. Aqui também há cercas e grades e muros enormes com mulheres tristes escondidas por detrás de maquiagens. Há o carro dos sonhos que vende de todos os sabores e eu sempre me pego lembrando dos ambulantes que vendiam de tudo na época infantil minha. Vendiam algodão doce e pipocas deliciosas quando minha cidade ainda era quase rural. Hoje as ruas são de duas mãos e as motos e motociclistas afoitos rompem a barreira da educação sadia. Minha cidade é a cidade de muitos, milhões, milhares. Temos uma relação de amor e ódio, como toda boa relação. Minha cidade nem sempre me acolhe. Nem a mim nem às inúmeras pessoas que dormem ao relento, sob o céu da cidade que é muito claro mesmo a noite. Aqui nasci mas não pertenço a esta cidade nem às suas calçadas, nem ao seu sotaque……todas as cidades no mundo são iguais e quanto maiores maior a indiferença que a gente faz dentro delas. Em pensar que tudo isso já foi uma vila de pessoas que se cumprimentavam sorridentes. Sinto saudades disso também.