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olhando o relógio que não marca horas

Julho 14, 2008

as pedras do jardim são pequenas, redondas, cor de terracota. são como soldados perfilados e penso que tenho um exército de gengis khan bem debaixo dos meus sapatos.

de manhã escureço / de dia tardo

de tarde anoiteço / de noite ardo

Suspiro leve, lenta, antiga. os jardins da reitoria estão mudos.a igreja dos remédios repica os sinos e o relógio que não marca as horas me convence de que tudo vai ficar bem.

Tudo vai ficar bem.

intimidade

Maio 13, 2008

Íntima idade

sem saber onde colocar as mãos porque quando se tem doze anos é tudo muito desconfortável, ainda mais quando se é menina e no corpo aparece tudo de uma vez, peitos, espinhas, pêlos. Morderam juntos o caju e ele achou isso tão sexual que teve que beliscar-se para não assustá-la com seu prazer inoportuno. Afinal a menina tinha doze anos. Ele era muito mais velho, tinha quinze. Já sabia beijar de língua, a menina da rua de baixo havia ensinado na festa do Nonô. Claro que ele não havia gostado mas claro que disse a todos que sim. Agora ele estava com a menina de doze anos, apaixonado até a última figurinha. Como dar o primeiro beijo sem parecer apressado?

Então a menina chamou seu nome. Não, ela gemeu o nome dele.

1.Estava sofrendo um choque anafilático ou algo que o valha.

2.Era terrivelmente alérgica a caju e não sabia.

3.Iria morrer logo se ele não fizesse nada.

Então ele a beijou, tirou a blusa dela para ver onde ficava a junção das costelas, pôs-se a massagear-lhe o coração e por fim a salvou.

Março 5, 2008

Ela me irrita, por deus, eu cometeria meu primeiro assassínio de bom grado para esmagar aquele sorrisinho meia boca e os óculos de zilo nas solas do meu sapato, ela vem cheia de perguntas às quais as respostas são impossíveis de serem respondidas na velocidade que ela imprime a uma conversa, são tantas interrogações e a única exclamação parte do meu pensamento fixo “assassínio, assassínio”, os comentários presunçosos sobre a própria inteligência e suposta capacidade de convencer as pessoas a fazer tudo o que quer saltam da boca que quase sempre está roendo uma tampa de caneta e ela pergunta (mais uma pergunta sem pausas, sem vírgulas) o que você está pensando, e eu penso em responder, mas antes de pensar, antes de responder, ela me interrompe, ela me perturba até os pensamentos, que diabos, ela me interrompe pra dizer que achou um site legal sobre B-sides e me manda uma música do U2 cantada pelos Smashing Pumpkins e eu desisto da cavalaria montada, desmonto minhas 40 mm, recolho as tropas e me deito na rede branca, exausta.

 

cidaDela

Janeiro 25, 2008

O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”.
Oswald de Andrade

Olho no espelho meu corpo. Há muitas marcas, curvas, sinais.
Ela está deitada ao meu lado, cabeça apoiada nas mãos como um felino. Olha meu olho pelo espelho e gosta de se ver refletida nele. As tatuagens, as sardas, tudo meu lhe é familiar. Fala de mim com um conhecimento de causa que chega a ser perturbador. “Olhe, sua cicatriz cresceu”, como cresceu, respondo, cicatrizes não crescem. Crescem sim, crescem sim, ela cantarola com os olhos fechados por causa da claridade do quarto. De repente salta da cama como se tivesse molas nos membros e pega uma caneta para quadro-branco em cima da mesa.
Eu olho.
Mais uma vez ela se viu refletida nas minhas pupilas. Vi na escuridão de vários eus que ela sorria.
Ela fez da minha pele nascer ruas, avenidas, uma ponte de madeira que ia de um ombro a outro, um fértil vale entre os seios, um aglomerado de casinhas na barriga, meninos brincando em torno do umbigo, perto de uma placa de PERIGO, POÇO PROFUNDO, uma parada de ônibus nas costelas, trilhos nas pernas com ponto final na ponta do dedão, uma zona rural inteirinha nas nádegas com direito a vaquinhas e cercas, uma estradinha sinuosa que levava à casa grande construída nas minhas costas, fundada entre as espáduas.

- E aí, senta comigo?

Dezembro 21, 2007

- Calçada é o revestimento com pedras (calces, em latim), Cálcio, calcite, recalcitrar, calçado, calcanhar, calcâneo e calcorrear são nomes que facilmente se relacionam com esta mesma etimologia. Calçar, além do ato que quase todos fazemos pela manhã ao meter os pés nos sapatos, é também colocar uma pedra por baixo daquilo que queremos que fique firme. Calle é a rua ou a calçada dos espanhóis, com correspondência para português nos termos calhariz e calheta que, no mundo rural do continente, se usa para referir o atalho por onde passam os rebanhos, e que nas ilhas significa pequena enseada ou abrigo na costa rochosa.

- Legal, você sabe mesmo sobre calçada.

- E aí, senta comigo?

- Tá louca, quer ser assaltada?

Ela foi embora com um livro de termos etimológicos debaixo do braço e uma nuvem enorme de chateação acima da cabeça.