“O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”.
Oswald de Andrade
Olho no espelho meu corpo. Há muitas marcas, curvas, sinais.
Ela está deitada ao meu lado, cabeça apoiada nas mãos como um felino. Olha meu olho pelo espelho e gosta de se ver refletida nele. As tatuagens, as sardas, tudo meu lhe é familiar. Fala de mim com um conhecimento de causa que chega a ser perturbador. “Olhe, sua cicatriz cresceu”, como cresceu, respondo, cicatrizes não crescem. Crescem sim, crescem sim, ela cantarola com os olhos fechados por causa da claridade do quarto. De repente salta da cama como se tivesse molas nos membros e pega uma caneta para quadro-branco em cima da mesa.
Eu olho.
Mais uma vez ela se viu refletida nas minhas pupilas. Vi na escuridão de vários eus que ela sorria.
Ela fez da minha pele nascer ruas, avenidas, uma ponte de madeira que ia de um ombro a outro, um fértil vale entre os seios, um aglomerado de casinhas na barriga, meninos brincando em torno do umbigo, perto de uma placa de PERIGO, POÇO PROFUNDO, uma parada de ônibus nas costelas, trilhos nas pernas com ponto final na ponta do dedão, uma zona rural inteirinha nas nádegas com direito a vaquinhas e cercas, uma estradinha sinuosa que levava à casa grande construída nas minhas costas, fundada entre as espáduas.