Arquivo da categoria ‘annak’

recomeços do-sem-fim, que é a entrega das almas nossas

Janeiro 16, 2009

estácio,

desde domingo penso em escrever-te algo, mas sempre acaba em uma carta dessas bem ajeitadinhas com um pedido de desculpas e impessoalidades por não estar contigo no teu aniversário. mas não posso, estácio, eu não posso ser impessoal com alguém que é tão gente como tu.

o fato é que eu não sabia como começar de verdade uma carta que revelasse os porquês inexplicáveis de não ter estado com você (de alguma forma) no seu onze de janeiro. para me justificar eu precisava registrar em palavras verbalizadas (e verbalizar é uma forma de me ouvir e consequentemente registrar) a dor de quem perde uma paixão.

é, estácio, aconteceu de novo, e mais uma vez, uma outra vez (quantas mais serão necessárias?!) aquilo que eu acreditava ser para sempre, findou. assim, como areia escorrida pelas mãos depois de uma ventania réa de nada, cessou um gostar (para uma das partes), e uma andorinha só faz um verão marromeno. aí, tu me sabe, ah estácio, tu é tão conhecedor das paixões mais-maiores-do-mundo, tu me sabe do desmantelo, do desespero que é ficar com uma sensação absurda e enorme de querer continuar a brincar no quintal de flores, mas não me ser mais possível isso. eu faço birra, faço manha, choro, me descabelo, respiro fundo e travo uma batalha interna para continuar acreditando no que chamam de amor. amor pra mim é respirar, estácio. é na pele, são nas coisas mais simples e tão grandiosas!! e eu fiquei dolorida: o corpo, as idéias.. eu não sei onde guardar os planos, onde direcionar uma paixão que é tão muita e que movimenta meu caminhar.

lembrei de você, sim. era seu dia e havia uma programação. quis estar celebrando com você os dias de janeiro, que são tão nossos, mas o tempo de delicadeza não me permitiu.

eu sei que você vai entender esse pedido de desculpas, porque você é um ser que se joga, como eu, nas coisas do coração, não saberíamos ser diferentes. e dessa forma, vamos sendo gigantes, vamos adiante, porque ‘não se afobe, que nada é pra já’.

feliz todos os tempos, estácio. e que o tempo nos seja generoso, nos contemple com amores vindouros, com recomeços do-sem-fim, que é a entrega das almas nossas.

a gente se vê daqui a pouco, no transatlântico.

beijo grande, de amor e afeto bem muito. pra nós.

tem 93 anos, nasceu no quinze.

Setembro 9, 2008

consertaram a linha telefônica depois de dois meses. ao primeiro toque, atendo. a voz trôpega do outro lado, na cidade vizinha, reclama saudade.
- alô?!?
- alô!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! karine?!
- …
- minina, você não acha que ta na hora de visitar os seus, não?!
- vô!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! sua benção!
- deus te abençoe.
- vô, eu tô com saudade do senhor!
- e você acha que eu tô usando esse troço (telefone) porquê?!

meu avô, seu antônio lopes, tem 93 anos, nasceu no quinze. anda ereto, tem sinusite e cabelos branquinhos. usa chapéu de massa, faz o café forte mais delicioso do planeta e conta histórias, as mais bonitas do mundo inteiro. em momentos de falar de amor, ele pede, nêga, faz uma ligação aqui nesse telefone celular, faz.
saudade da boa, dessas de expansão, em que se mata com uma paulada certeira.

desejando não ser um ser de capricórnio

Junho 25, 2008

ela diz que hoje não dará certo e que minha cama esperará um outro dia, um dia menos cansado, um tempo mais além, porque eu não posso ter tudo, não posso ter birra, não posso fazer bico. eu não sei fingir um óbvio ‘tá, tudo bem, fico quieta’. não, não sei. porque ando crescida, ando em expansão e não é querer demais querer acordar ao lado dela, sentir o cheiro dela, me apossar das músicas dela, partilhar as sensações todas, o banheiro, a escova de dentes, o lençol. não, não é. mas eu subo no ônibus pequenininho, com o coração pequenininho, as unhas prestes a serem roídas, organizando o pensamento ilógico, desejando não ser um ser de capricórnio, querendo a boca dela, o dente dela, o ouvido dela pra me escutar contar do dia, da aula, das coisas, dos abusos, pra ouvi-la em suas teorias mais bonitas do planeta, pra gente confessar em uníssono a paixão. mas o caminho pra casa é meu só meu. fecho os olhos e respiro fundo. a chave na porta, duas voltas, a cama vazia e o cheiro dela, a alfazema dela, e o maior órgão do meu próprio corpo humano, me avisa:
paciência.

é que eu não gosto de pimentão

Maio 5, 2008

em todo caso vou deixar acertado uma coisa aqui: nada do que eu diga nesse exato momento quer dizer que não possa ser modificado depois, que pode ser daqui há dois segundos ou pode ser somente na outra volta no planeta, ok?! tá, tudo bem.. e seja o que for, isso não prova nada, não diz nada..é só uma demonstração bem superficial do que tenho guardado aqui dentro. (e apontava pra pele do braço esquerdo). diz logo, criatura! bom, é que eu não gosto de pimentão, não aprendi a nadar, não sei falar inglês, assisto e gosto da novela na emissora concorrente, esqueço propositalmente de escovar os dentes antes de dormir e nunca sei onde colocar as mãos. ah, coloca aqui.

fortitudine

Março 28, 2008

minha cidade tem o coração numa praça com milhares de conversas estendidas pelas tardes. faça chuva ou faça sol. minha cidade não esconde segredos, grita os desabafos. não é enorme nem é pequena. não tem cheiro de nostalgia nem cara de modernidade. minha cidade eu caminho sem medo e não me assombro por encontrar nas esquinas os sorrisos mais bonitos. minha cidade é meu corpo. eu cuido, zelo, enfeito, percorro, me aposso, ofereço, partilho. é forte.

da luta não me retiro

Março 25, 2008

eu te liguei foi pra saber de mim, porque te falando eu me ouvia. ta, sei que é egoísta e pequenino, mas nos mais absortos lugares, nos mais imperceptíveis detalhes eu me enxergo nos desvãos do que há entre eu e você. e naquele desespero de encaixar as palavras certas, ilustrar fatos e personas eu compreendia no ritmo acelerado da minha respiração: meu coração voltava bater e exigia passagem. soltando as cascas, me despindo das armaduras, da luta não me retiro: essa guerra nunca está ganha. gracias.

enquanto se equilibrava no meio-fio

Dezembro 21, 2007

.
.
escuta só o que vou te dizer agora ká, é bem sério! e, enquanto se equilibrava no meio-fio, braços abertos para manter o prumo, mabel ia falando sem parar sobre como se deve esquecer uma paixão. mais uma, mais outra, mais mil. eu achava lindo aquele movimento que ela fazia com os cabelos, colocando-os pra detrás da orelha, outra hora retirando-os. sempre indecisa, a menina. os pés calçados em um all star seminovo a marcar o compasso da caminhada. fiquei sentada observando as ações dela. é preciso que você gere raiva, que você visualize os defeitos, as manias feias, sabe?! só assim você começa a expulsar a paixão.. tá me escutando, ká?! lógico que estou, sua boba, mas não acredito tanto nisso. gerar raiva pra expulsar a loucura da paixão?! é! ela se abaixou um pouco, o cabelo liso caiu todo no rosto dela, chegou bem perto de mim, fez cócegas no meu rosto e beijou minha testa. bora brincar na outra calçada, bora, ká?! mudar os ares! eu sorri. bora! mabel pareceu ter ido caminhar num outro planeta, de tão resplandecente que sempre é.