Arquivo da categoria ‘3 - na hora da guerra’

rá tá tá tá… tátá…

Abril 16, 2008

Quando me entendi por gente já estava no meio do fogo cruzado, sem pátria, sem noção. Desarmado, alvo fácil, sem aliados, à mercê do acaso e da morte. Confesso que por diversas vezes fugi desesperadamente, ignorei pedidos de socorro, só pensei na minha pele. Tornei-me cruel, dentes cerrados, olhos vidrados. Eram tantas atrocidades que acabei por descobrir-me meu maior inimigo e essa, ironicamente, foi minha sorte. Repentinamente o fogo cessou. Alívio. Estavam dentro de mim, no mesmo exército, a bomba H e o olhar desolado do inocente. Tornei-me então meu próprio estadista, estreitei fronteiras, descansei meu coração. Hoje sigo mais forte, peito aberto, piso firme e quase sem medo. Todo dia, um dia D, uma nova estratégia, um novo tratado de paz.

E neste ir e vir de guerras dentro e fora de nós

Março 31, 2008

Eu sangro, tu sangras, ele sangra, todos sangram
então para que a guerra?
Este precioso líquido que nos preenche e é derramado inutilmente em batalhas sem ganhadores.
Este rubro líquido viscoso, visceral que pulsa dentro de cada um e que foge pela mínima ferida aberta. Este sangrar sagrado de cada ser ao corte ínfimo…
A dor do sangue derramado…
A lástima da ferida aberta…
As lágrimas translúcidas e inodoras de cada olho que chove
Limpam e diluem o sangue dos filhos da guerra
A lágrima de cada mãe, irmã, amada
A dor do peito frágil
A dor da falta
O sangue jorrado em vão a olhos vistos
Na hora da guerra o inútil trabalho de um corpo de toda a vida
O trabalho de crescer e de florescer
A possibilidade do florescimento desperdiçada pela brutalidade
E neste ir e vir de guerras dentro e fora de nós
Há de surgir algo belo
Algo novo
Nutrido pelo choro, pelo luto da morte
A flor rubra a imitar o sangue recheio humano
Há de curar o dilaceramento da perda
Amém

da luta não me retiro

Março 25, 2008

eu te liguei foi pra saber de mim, porque te falando eu me ouvia. ta, sei que é egoísta e pequenino, mas nos mais absortos lugares, nos mais imperceptíveis detalhes eu me enxergo nos desvãos do que há entre eu e você. e naquele desespero de encaixar as palavras certas, ilustrar fatos e personas eu compreendia no ritmo acelerado da minha respiração: meu coração voltava bater e exigia passagem. soltando as cascas, me despindo das armaduras, da luta não me retiro: essa guerra nunca está ganha. gracias.

Eu não estou aqui, isso não está acontecendo.

Março 24, 2008

Quando alguma coisa tem que dar errado na sua vida, ela simplesmente dá, e as coisas tendem normalmente a serem muito injustas, sabe quando algo lhe diz “fica em casa, fulano!”, e você não dá ouvidos a esse algo. Quando você sabe que está mal, tristeza boba apertando dentro do peito, em busca de qualquer sorriso de qualquer pessoa, ou qualquer piada sem graça, que ainda sim você sabe que irá rir. Você sai de casa sem esperar grandes coisas, na verdade nem as quer, simplesmente a necessidade é deixar as coisas fluirem, na sua perfeita normalidade, porque sente, não sabe como, simplesmente sente que seus olhos marejam por qualquer coisa, e que lá no fundo nada anda fazendo sentido direito. Nessas horas sempre tem um promotor que não quer ouvir sua defesa, e um juiz que quer lhe condenar a qualquer custo, sempre!
Pois é, quando tudo se encaixar nas características acima, não saia de casa. Conselho meu.

Renascimentos. Ou: Domingo de páscoa.

Março 23, 2008

“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”. Já faz tempo que Cecília Meireles disso isso e a frase bóia em círculos em minha mente. Morrer e nascer de novo. E me pergunto por quantas mortes ainda vou passar pra te encontrar embrião dentro de mim novamente. Mas você não acredita em reencarnação, não se interessa em questionar a natureza das coisas e das gentes e não entende como funciona o florescer. Não te culpo. Te compreendo. Te lamento. Te odeio, ou quase isso. Te vejo longe e me vejo aí, presa no seu calcanhar. Não por opção minha, talvez nem sua. É que às vezes é assim mesmo. Às vezes a gente pensa ter se livrado mas cola com Superbonder cada vez mais a pessoa na pele. Desejo muitas mortes pra você. E um derradeiro renascer, no meio de tantos, realmente livre de medo da nudez e escorregões na calçada. Escorregue, aprenda e desaprenda a andar no meio fio. Sinta medo, sinta vergonha, ame, odeie, sinta-se ridículo, chore, ria, sinta e viva a vida de verdade. Quem sabe no meio desse vendaval as varetas quebradas dos nossos guarda-chuvas se enrosquem. Quem sabe.

Março 5, 2008

Ela me irrita, por deus, eu cometeria meu primeiro assassínio de bom grado para esmagar aquele sorrisinho meia boca e os óculos de zilo nas solas do meu sapato, ela vem cheia de perguntas às quais as respostas são impossíveis de serem respondidas na velocidade que ela imprime a uma conversa, são tantas interrogações e a única exclamação parte do meu pensamento fixo “assassínio, assassínio”, os comentários presunçosos sobre a própria inteligência e suposta capacidade de convencer as pessoas a fazer tudo o que quer saltam da boca que quase sempre está roendo uma tampa de caneta e ela pergunta (mais uma pergunta sem pausas, sem vírgulas) o que você está pensando, e eu penso em responder, mas antes de pensar, antes de responder, ela me interrompe, ela me perturba até os pensamentos, que diabos, ela me interrompe pra dizer que achou um site legal sobre B-sides e me manda uma música do U2 cantada pelos Smashing Pumpkins e eu desisto da cavalaria montada, desmonto minhas 40 mm, recolho as tropas e me deito na rede branca, exausta.