Arquivo da categoria ‘1 - a calçada’

Pulava até o céu e voltada pra calçada, de onde ela não fugia

Janeiro 13, 2008

Ela vinha intacta. Invariavelmente. Seu corpo delgado balançava em cadência sobre sua perninhas finas. Uma orelha pendia mais pra um lado que pra outro e dos olhos saíam dois raios de alegria. Espumante. Corria uma légua inteira e não saía do lugar. Pulava até o céu e voltada pra calçada, de onde ela não fugia. O mundo era ali, dois minutos frente aquele meio metro de cimento batido em declive. De longe eu via seu rabo finíssimo que balançava sem fim.

calçada

Janeiro 11, 2008

sentava lá toda tarde

lá.

Janeiro 7, 2008
as luzes mudam três vezes ao dia. o sol da manhã pousa os melhores raios, o calor mais vibrante. o movimento intenso de passantes lembra a caminhada, o primeiro dia de escola, a labuta bendita, a feira, o almoço a preparar. o início da tarde traz a preguiça, um vazio que impera em solidão. a quentura do dia se concentra lá, teimosa e displicente. a brisa fagueira do fim de tarde seduz ao encontro. a confluência da tarde com a noite é chamamento para a velha prosa, para compartir os acontecimentos diários, para despedidas intermináveis. a brincadeira das crianças se concretiza lá. a amarelinha é desenhada como no pensamento, a corda estala estridente e a bola rasteja-pula quicando. lá também é endereço do namorinho de portão, inocente, sabido e brejeiro. risadas, gargalhadas, constatações, afetos, puxões de orelha, manifestações de apreço e gentileza. na calçada. nas calçadas.

“Sou pisada, mas fui feita para isso!”

Janeiro 5, 2008

Olá! Meu nome é Calçada e trabalho como lugar onde as pessoas se apóiam para tomar impulso para continuarem a caminhar. Eu sei que é uma função complexa a ser executada diariamente, mas, como o mercado anda concorrido ultimamente, não quero me arriscar em outro emprego. Além disso, também gosto desse.

Muitos passam por mim e nem imaginam como é o mundo daqui. Só se lembram de mim quando tropeçam e soltam a enorme lista de palavras de baixo calão.

Vejo muitos sapatos diferentes, mas o que chamou mesmo minha atenção foi um par de pés descalços. Ficou horas em cima de mim, desenhando letras em minha superfície. Foi o único momento em que desejei ser humana, porém essa idéia logo foi colocada de lado quando os coturnos chegaram e o tirou, pois prefiro ter a função de ser pisada a ser calçada porque outras pessoas gostam de judiar outras.

saturação dos sentidos

Dezembro 24, 2007

A exatamente vinte anos fazia o mesmo trajeto Santa Cruz – Madureira, todo santo dia, ou melhor, de segunda a sexta.
É difícil descrever em detalhes as flores da casa do seu Régis , assim como as folhas de hortelã do quintal de Dona Célia que saltitavam pela cerca. Mas o porque disto, deste descaso com coisas tão singelas em minha rua, meu habitat.
Lembro que uma profesora de psicologia falou da saturação dos sentidos, funciona como o cigarro pro fumante, o perfume forte de anos. Não se sente mais. Se está vivo e não está. É insensível. Sou eu que agora sofri um abalo sistêmico. Tudo por causa da menina de tranças, vestido amarelo, que flutuava suas sandálias na calçada gramada do Seu Amorim, ela deu o destaque pra calçada com seus pés de unhas vermelhas, sandália trançada até as canelas, um desfilar sem fim que tinha como pano de fundo gramas e pés de araçás da casa do Amorim. Era tão lindo que entortei o pescoço até o “bum” no cruzamento daquela esquina. Não era mais calçada. Era rua. Sem flores, sem hortelã, com ervas daninhas de cimento, microorganismo blindados e muita violência.

enquanto se equilibrava no meio-fio

Dezembro 21, 2007

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escuta só o que vou te dizer agora ká, é bem sério! e, enquanto se equilibrava no meio-fio, braços abertos para manter o prumo, mabel ia falando sem parar sobre como se deve esquecer uma paixão. mais uma, mais outra, mais mil. eu achava lindo aquele movimento que ela fazia com os cabelos, colocando-os pra detrás da orelha, outra hora retirando-os. sempre indecisa, a menina. os pés calçados em um all star seminovo a marcar o compasso da caminhada. fiquei sentada observando as ações dela. é preciso que você gere raiva, que você visualize os defeitos, as manias feias, sabe?! só assim você começa a expulsar a paixão.. tá me escutando, ká?! lógico que estou, sua boba, mas não acredito tanto nisso. gerar raiva pra expulsar a loucura da paixão?! é! ela se abaixou um pouco, o cabelo liso caiu todo no rosto dela, chegou bem perto de mim, fez cócegas no meu rosto e beijou minha testa. bora brincar na outra calçada, bora, ká?! mudar os ares! eu sorri. bora! mabel pareceu ter ido caminhar num outro planeta, de tão resplandecente que sempre é.

O que tu não encontra lá?!

Dezembro 21, 2007

Na calçada onde passo todo dia, tem um monte de gente andando… vendendo… trocando, enfim fazendo dinheiro, aí eu escuto: “- Tsunami III é o novo!! Abelhinha é o novo!!!” e principalmente nesse período do ano a coisa fica preta, todos na rua procurando presentes, aí toda hora tu esbarra em alguém, parece até que tais num bloco de carnaval, tudo isso porque lá tu encontrada de tudo, na calçada tu encontra… CD, DVD de filme que ainda nem lançou no cinema, MP3, MP4, IPOD, CÂMERA DIGITAL, FILMADORA, DVD PORTÁTIL, e principalmente ROUPA E TÊNIS igual aqueles que tu ver na vitrine do shopping, e que custa aquela grana e que tu não pode comprar mais lá na calçada, TU PODE, lá tu compra um idêntico, como assim??? como eles fazem isso??? Pois é, e tem mais, por um preço bem mais acessível. É uma calçada enorme, são 3 quadras, tu se perde lá dentro!! Mais como tudo tem seu lado negativo, sou um pouco radical em certas coisas… não costumo comprar lá! mais o Rio de Janeiro em peso sustenta esse sistema, será uma coisa justa??? Muita coisa poderia ser diferente!!! Sou contra a pirataria!!! Essa calçada é conhecidíssima e conceituada, todos a indincam, quando alguém pergunta: “-Ah… tu sabe onde eu encontro…?? – Claro, lá no CAMELÔ DA URUGUAIANA!!!

Pronto, essa calçada que estou falando é o MERCADO POPULAR DA URUGUAIANA, vulgo CAMELÔ DA URUGUAIANA.

- E aí, senta comigo?

Dezembro 21, 2007

- Calçada é o revestimento com pedras (calces, em latim), Cálcio, calcite, recalcitrar, calçado, calcanhar, calcâneo e calcorrear são nomes que facilmente se relacionam com esta mesma etimologia. Calçar, além do ato que quase todos fazemos pela manhã ao meter os pés nos sapatos, é também colocar uma pedra por baixo daquilo que queremos que fique firme. Calle é a rua ou a calçada dos espanhóis, com correspondência para português nos termos calhariz e calheta que, no mundo rural do continente, se usa para referir o atalho por onde passam os rebanhos, e que nas ilhas significa pequena enseada ou abrigo na costa rochosa.

- Legal, você sabe mesmo sobre calçada.

- E aí, senta comigo?

- Tá louca, quer ser assaltada?

Ela foi embora com um livro de termos etimológicos debaixo do braço e uma nuvem enorme de chateação acima da cabeça.

Calçadas cansavam.

Dezembro 20, 2007

Mas quem que na calçada andava, na calçada andava, andava e andava e andava. Andava tanto, não cansava, a calçada não era uma simples calçada, a calçada era um calço, a calçada calçava, a calçada era um caminho, a calçada servia para andar, achar, pensar. Mas quem que na calçada andou, andou tanto, andou muito, andou demasiadamente, andou mas não cansou, quis parar, calçar a calçada, cansar a calçada, a calçada agora calçada, cansada calçada. Sentou na calçada, olhou pra calçada, tocou a calçada, calçada agora quente, cansada calçada. A calçada não falava, a calçada não se mexia, a calçada esquentava, dilatava, a calçada era de pedra, a calçada tinha terra, a calçada tinha alma. Alma de calçada, ninguém entende a alma da calçada, a alma da calçada entende as almas que passeiam na calçada, almas que andam, não almas de calçada. Andam por cima dela, nem a percebem, e a calçada continua ali, um calço, um calço cansado de calçada. Um calço quente, almado, dilatado, calçado. Ninguém é capaz de desalmar a calçada de calço calçado. Ninguém se quer percebe a calçada. Calçava a calçada. A calçada queria um sorriso, a calçada não saberia sorrir, a calçada agora desalmada, passeava pela alma de outras calçadas, a alma da calçada é o sonho do calço, e vice-versa. E milhares ainda andavam pelas calçadas, as muitas calçadas.

Seríamos verde claro com laranja

Dezembro 20, 2007

Sentada na calçada de casa, viu a noite chegando devagar. Precisava de um amor. Comia um picolé pardal sem gosto, pensando aborrecida no ano que terminava. Nunca havia se sentido tão só, e descobriu do pior jeito que você pode ter muitos amigos, um trabalho honesto e uma boa família, mas um amor sempre faz falta. Por mais que saiba se virar só, mulher tem mesmo essa necessidade boba de ter alguém pra ligar quando o carro der defeito, mesmo que tenha na carteira o número do seguro veicular. Pra ligar quando todo mundo resolver sair pra beber até cair pela décima quinta vez seguida, enquanto você só quer comer tapioca em algum lugar simples.

Sentada na calçada de casa ela resolveu desistir. E por ironia do destino ou não, quando ela tirou os olhos do esmalte gasto pensando em chamar a manicure urgentemente, viu que de longe, em outra calçada, tinha alguém na mesma posição, a mão no queixo e a outra segurando um picolé pardal, os olhos nas unhas, cabelo solto e uma blusa da cor que, junto com a sua, fazia a sua combinação de cores preferida. Seríamos verde claro com laranja, pensou.

Foi aí que ela voltou a acreditar.