Eu sangro, tu sangras, ele sangra, todos sangram
então para que a guerra?
Este precioso líquido que nos preenche e é derramado inutilmente em batalhas sem ganhadores.
Este rubro líquido viscoso, visceral que pulsa dentro de cada um e que foge pela mínima ferida aberta. Este sangrar sagrado de cada ser ao corte ínfimo…
A dor do sangue derramado…
A lástima da ferida aberta…
As lágrimas translúcidas e inodoras de cada olho que chove
Limpam e diluem o sangue dos filhos da guerra
A lágrima de cada mãe, irmã, amada
A dor do peito frágil
A dor da falta
O sangue jorrado em vão a olhos vistos
Na hora da guerra o inútil trabalho de um corpo de toda a vida
O trabalho de crescer e de florescer
A possibilidade do florescimento desperdiçada pela brutalidade
E neste ir e vir de guerras dentro e fora de nós
Há de surgir algo belo
Algo novo
Nutrido pelo choro, pelo luto da morte
A flor rubra a imitar o sangue recheio humano
Há de curar o dilaceramento da perda
Amém
Posts de Março, 2008
E neste ir e vir de guerras dentro e fora de nós
Março 31, 2008fortitudine
Março 28, 2008minha cidade tem o coração numa praça com milhares de conversas estendidas pelas tardes. faça chuva ou faça sol. minha cidade não esconde segredos, grita os desabafos. não é enorme nem é pequena. não tem cheiro de nostalgia nem cara de modernidade. minha cidade eu caminho sem medo e não me assombro por encontrar nas esquinas os sorrisos mais bonitos. minha cidade é meu corpo. eu cuido, zelo, enfeito, percorro, me aposso, ofereço, partilho. é forte.
da luta não me retiro
Março 25, 2008eu te liguei foi pra saber de mim, porque te falando eu me ouvia. ta, sei que é egoísta e pequenino, mas nos mais absortos lugares, nos mais imperceptíveis detalhes eu me enxergo nos desvãos do que há entre eu e você. e naquele desespero de encaixar as palavras certas, ilustrar fatos e personas eu compreendia no ritmo acelerado da minha respiração: meu coração voltava bater e exigia passagem. soltando as cascas, me despindo das armaduras, da luta não me retiro: essa guerra nunca está ganha. gracias.
Eu não estou aqui, isso não está acontecendo.
Março 24, 2008Quando alguma coisa tem que dar errado na sua vida, ela simplesmente dá, e as coisas tendem normalmente a serem muito injustas, sabe quando algo lhe diz “fica em casa, fulano!”, e você não dá ouvidos a esse algo. Quando você sabe que está mal, tristeza boba apertando dentro do peito, em busca de qualquer sorriso de qualquer pessoa, ou qualquer piada sem graça, que ainda sim você sabe que irá rir. Você sai de casa sem esperar grandes coisas, na verdade nem as quer, simplesmente a necessidade é deixar as coisas fluirem, na sua perfeita normalidade, porque sente, não sabe como, simplesmente sente que seus olhos marejam por qualquer coisa, e que lá no fundo nada anda fazendo sentido direito. Nessas horas sempre tem um promotor que não quer ouvir sua defesa, e um juiz que quer lhe condenar a qualquer custo, sempre!
Pois é, quando tudo se encaixar nas características acima, não saia de casa. Conselho meu.
Renascimentos. Ou: Domingo de páscoa.
Março 23, 2008“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”. Já faz tempo que Cecília Meireles disso isso e a frase bóia em círculos em minha mente. Morrer e nascer de novo. E me pergunto por quantas mortes ainda vou passar pra te encontrar embrião dentro de mim novamente. Mas você não acredita em reencarnação, não se interessa em questionar a natureza das coisas e das gentes e não entende como funciona o florescer. Não te culpo. Te compreendo. Te lamento. Te odeio, ou quase isso. Te vejo longe e me vejo aí, presa no seu calcanhar. Não por opção minha, talvez nem sua. É que às vezes é assim mesmo. Às vezes a gente pensa ter se livrado mas cola com Superbonder cada vez mais a pessoa na pele. Desejo muitas mortes pra você. E um derradeiro renascer, no meio de tantos, realmente livre de medo da nudez e escorregões na calçada. Escorregue, aprenda e desaprenda a andar no meio fio. Sinta medo, sinta vergonha, ame, odeie, sinta-se ridículo, chore, ria, sinta e viva a vida de verdade. Quem sabe no meio desse vendaval as varetas quebradas dos nossos guarda-chuvas se enrosquem. Quem sabe.
Sou, não sou. Estou, não estou
Março 22, 2008Não sou eu. Sou eu. Sou várias. Sou uma. Sou única.
Opiniões mudam, mantêm-se as mesmas por anos, por décadas, nunca se quebram, sempre se desmancham.
Nunca sei o que é certo e errado, pois meus princípios são altamente mutantes. Nem sei definir o que quero pra mim. Pergunte-me agora o quero comer que não saberei dizer com certeza na lata.
Mas também sei que quero fazer o que acho certo independente do que as pessoas me dizem e acham ser o mais correto.
Vivo crises constantes. Não, não faço análise. Não tenho que dividir o que penso com outras pessoas, disso tenho certeza absoluta. Se um dia for necessário, paciência, mudo de posição. Pronto!
Enojo-me facilmente. Odeio hipocrisia, mas será que não sou hipócrita também quando dou sorrisos amarelos para quem não suporto? Para aquelas pessoas que renunciam por acharem que fugir da guerra é melhor do que dar continuidade ao que começaram, arrumar a merda feita, ajeitar a casa, assumir os erros e recomeçar? Para aqueles que esquecem de que têm livre-arbítrio, de que podem escolher assistir a programas legais e não BBB’s da vida?
Quero que a discussão dentro de mim nunca pare. E não me refiro à luta entre bem e mal. Nada de maniqueísmo! Isso é chato e monótono demais. São guerras feias entre diversos lados, o que torna os problemas bem maiores do que realmente são.
Não acho ruim. Prefiro assim. Cresço mais e mais rápido dessa forma. Meu pensamento aprende a ser mais completo, mais complexo, mais instigante, mais bonito e incompreensível para os outros. Só eu me entendo. Tenho minha própria gramática, meu próprio vocabulário, minha própria lógica.
Decifrar os outros é ridículo e impossível. Até hoje não aprendi a me entender, quanto mais os outros.
O melhor / pior de tudo é que gosto de mim assim, poderia ser mais tranqüila, mais feliz, menos ansiosa. Mas se não fosse assim, não seria quem sou, e gosto de quem sou.
Sou eu.
Não sou eu.
horizonteamentAÇÕES
Março 8, 200811:45 da manhã de um dia todo torto, onde acontecem sempre as coisas antes de sua precisão. Imprecisas, pois. Corre para a janela. É uma janela que diz coisas bonitas (meio esverdeadas e úmidas, mas cheias de sensações). Avista, como de costume, um barquinho que vai sempre pra lugar nenhum… vai e vai sempre…Porém vai determinado dessa vez, com ânsia de chegar e bem munido. Carrega todas as dúvidas e angústias necessárias pra encontrar as respostas; leva consigo também um patinho amarelo de borracha, um cata-vento, um pião (já sem seu eixo que o faz girar), duas penas de tamanhos diferentes, um livro com muitas folhas vazias de sentimentos dispostas a serem preenchidas, e uma meta: a falta de grandes expectativas. Coloca tudo num balaio bem grande, bem na proa. SIM, está pronto pra começar a guerrear.…[a menina imagina]…Ela se volta para o som mágico que está ouvindo, sorri, e leva o resto do dia a pensar que é bom.
Março 5, 2008
Ela me irrita, por deus, eu cometeria meu primeiro assassínio de bom grado para esmagar aquele sorrisinho meia boca e os óculos de zilo nas solas do meu sapato, ela vem cheia de perguntas às quais as respostas são impossíveis de serem respondidas na velocidade que ela imprime a uma conversa, são tantas interrogações e a única exclamação parte do meu pensamento fixo “assassínio, assassínio”, os comentários presunçosos sobre a própria inteligência e suposta capacidade de convencer as pessoas a fazer tudo o que quer saltam da boca que quase sempre está roendo uma tampa de caneta e ela pergunta (mais uma pergunta sem pausas, sem vírgulas) o que você está pensando, e eu penso em responder, mas antes de pensar, antes de responder, ela me interrompe, ela me perturba até os pensamentos, que diabos, ela me interrompe pra dizer que achou um site legal sobre B-sides e me manda uma música do U2 cantada pelos Smashing Pumpkins e eu desisto da cavalaria montada, desmonto minhas 40 mm, recolho as tropas e me deito na rede branca, exausta.
Cidade Solar
Março 4, 2008O mapa da minha cidade está pregado no lado de dentro da minha pele. Bem esticadim. Todo furado com pequenos objetos de metais vermelhos de onde supostamente jorraria água. O céu sobre minha cidade de tempos em tempos é riscado de um horizonte ao outro por uma nuvem branca de fumaça de avião. É um avião muito mínimo e misterioso, a gente quase nunca vê. Os ventos da minha cidade saem de ventiladores gigantes situados lá na ponta mansa e de acesso proibido. Esses ventiladores estão ali pra soprar os navios até o porto. Eles são brancos e têm 3 hélices – os ventiladores, claro. Na minha cidade é perigoso abrir um livro no meio da rua, a gente pode cegar ou morrer atravessada por raios solares. Aqui as pessoas têm a capacidade a-plínica de surgirem subitamente para ilustrar a história que conto. E todos esses sabem o nome verdadeiro da cidade.
