Aqui nasci mas não pertenço a esta cidade nem às suas calçadas

By nacalcada

Minha cidade é pequena, embora grande. Cheia de sons de buzinas e de outdoors. Dizem ser a mais organizada e de tão organizada é monótona durante a semana. Gosto especialmente das calçadas da minha cidade porque são amplas e quadriculadas e nelas cabem todos os passos de um ser humano. Sobre ela passam todos os urbanos e rurais. Passam pensamentos e camelôs. Passam as folhas de outono e as flores que caem amarelinhas e que quando pisoteadas soltam um odor doce e morno. Na minha cidade eu me criei dentro de um quintal durante a semana e aos domingos na feirinha do largo. Lá descobri os artesanatos e os artesãos. Descobri a arte de imitar a natureza sem medidas. A cidade me viu descobrindo sons e sabores dentro dela com suas milhões de gastronomias multiculturais. Na cidade vivi grandes amores e as maiores decepções na noite da cidade. Na cidade meu primeiro beijo, os primeiros amigos, as amigas, as mortes. Ali, atônita com as árvores da cidade eu me contatava com o universo todo mal sabendo que ele era tão mais absoluto e pleno do que eu acreditava. Aqui na minha cidade há gritos e há silêncios raros, raríssimos silêncios entre um sinaleiro que abre e outro. Caminhar por sobre a cidade me extasia quando descubro detalhes que jamais havia me atentado acerca. Aqui também há cercas e grades e muros enormes com mulheres tristes escondidas por detrás de maquiagens. Há o carro dos sonhos que vende de todos os sabores e eu sempre me pego lembrando dos ambulantes que vendiam de tudo na época infantil minha. Vendiam algodão doce e pipocas deliciosas quando minha cidade ainda era quase rural. Hoje as ruas são de duas mãos e as motos e motociclistas afoitos rompem a barreira da educação sadia. Minha cidade é a cidade de muitos, milhões, milhares. Temos uma relação de amor e ódio, como toda boa relação. Minha cidade nem sempre me acolhe. Nem a mim nem às inúmeras pessoas que dormem ao relento, sob o céu da cidade que é muito claro mesmo a noite. Aqui nasci mas não pertenço a esta cidade nem às suas calçadas, nem ao seu sotaque……todas as cidades no mundo são iguais e quanto maiores maior a indiferença que a gente faz dentro delas. Em pensar que tudo isso já foi uma vila de pessoas que se cumprimentavam sorridentes. Sinto saudades disso também.

Deixe uma resposta