Posts de Fevereiro, 2008

Aqui nasci mas não pertenço a esta cidade nem às suas calçadas

Fevereiro 19, 2008

Minha cidade é pequena, embora grande. Cheia de sons de buzinas e de outdoors. Dizem ser a mais organizada e de tão organizada é monótona durante a semana. Gosto especialmente das calçadas da minha cidade porque são amplas e quadriculadas e nelas cabem todos os passos de um ser humano. Sobre ela passam todos os urbanos e rurais. Passam pensamentos e camelôs. Passam as folhas de outono e as flores que caem amarelinhas e que quando pisoteadas soltam um odor doce e morno. Na minha cidade eu me criei dentro de um quintal durante a semana e aos domingos na feirinha do largo. Lá descobri os artesanatos e os artesãos. Descobri a arte de imitar a natureza sem medidas. A cidade me viu descobrindo sons e sabores dentro dela com suas milhões de gastronomias multiculturais. Na cidade vivi grandes amores e as maiores decepções na noite da cidade. Na cidade meu primeiro beijo, os primeiros amigos, as amigas, as mortes. Ali, atônita com as árvores da cidade eu me contatava com o universo todo mal sabendo que ele era tão mais absoluto e pleno do que eu acreditava. Aqui na minha cidade há gritos e há silêncios raros, raríssimos silêncios entre um sinaleiro que abre e outro. Caminhar por sobre a cidade me extasia quando descubro detalhes que jamais havia me atentado acerca. Aqui também há cercas e grades e muros enormes com mulheres tristes escondidas por detrás de maquiagens. Há o carro dos sonhos que vende de todos os sabores e eu sempre me pego lembrando dos ambulantes que vendiam de tudo na época infantil minha. Vendiam algodão doce e pipocas deliciosas quando minha cidade ainda era quase rural. Hoje as ruas são de duas mãos e as motos e motociclistas afoitos rompem a barreira da educação sadia. Minha cidade é a cidade de muitos, milhões, milhares. Temos uma relação de amor e ódio, como toda boa relação. Minha cidade nem sempre me acolhe. Nem a mim nem às inúmeras pessoas que dormem ao relento, sob o céu da cidade que é muito claro mesmo a noite. Aqui nasci mas não pertenço a esta cidade nem às suas calçadas, nem ao seu sotaque……todas as cidades no mundo são iguais e quanto maiores maior a indiferença que a gente faz dentro delas. Em pensar que tudo isso já foi uma vila de pessoas que se cumprimentavam sorridentes. Sinto saudades disso também.

Hoje não tem sol.

Fevereiro 13, 2008

Na cidade cinza, escura por dentro, escura por fora. Tantas viagens, em tantos dias, de tantos dias. Prédios altos, relevo dos sonhos, terra, chão batido, pés no chão, no concreto da cidade cinza, e nenhum sol hoje vai brilhar, não tem sol na previsão, talvez amanhã, quem sabe amanhã ele brilhe na cidade cinza, a do relevo dos sonhos.

No posto seis

Fevereiro 10, 2008

Gemido pode, se for baixinho. Nua ainda não, mas desnudada contra o vento, no canto do olho apaixonado, quem sabe. Regras deste tipo eram mania dela desde que a vi, de rosto virado pro chão, pisando com cuidado sobre as pedrinhas brancas, no desenho composto da calçada. Pra dar sorte, dizia ela, mas eu pensei: isso não vai dar certo. Quem deu sorte acho que fui eu e agora tento, do jeito que posso, transgredir suavemente o rígido código moral dela. No rosto pode, no lábio mole a língua discreta, oculta no largo da aba, descendo pescoço abaixo pela estampa filtrada da palha, ai, assim não. Na nuca ainda não. Na curva da noite quem sabe, se a luz não fosse tão clara… Pelo dorso adentro meu braço na cintura dela, eu mal me agüento mas finjo que aceito flanar por enquanto na sombra dela, o corpo me delata e toca o flanco, branco, preto, branco eu brincando com a sorte de tê-la conhecido, provando o doce e faminto hálito dela ali, gemendo, aiai, se for baixinho pode.
O amor, como a prosa, não tem regra nenhuma. E aparece até no tombo, foi, com essa mania de rosto pro chão, claro, uma obsessão sempre exclui as demais, contando os passos preto no branco ela esbarrou na mesa, derrubou meu chope e aterrissou no meu colo cansado que ao peso ondulante dela se enrijeceu, se lembrou, gritou de desejo no meio do dia. Depois disso não teve mais chope, nem dama, nem carta jogada fora, o tempo encolhido no encontro, apenas o ponto dolorido do toque na queda abrupta dela, nem olhar a bem da verdade teve. Foi preto no branco e eu virei outro, e agora isso pode, aquilo não pode, é por puro amor que se eu penso não digo, se eu quero não faço, se eu gozo não conto até que ela me abrace e me abra a cona, no apartamento apertado com vista pra praça, as cortinas baixadas e a cama desfeita, onde a gente pode tudo.

violável o corpo

Fevereiro 7, 2008

é lá onde eu quero estar. do outro lado. de dentro.