Posts de Janeiro, 2008

Cidade minha, ô cidade minha

Janeiro 30, 2008

Há em mim… minha terra natal, cercada por rios e cortadas por pontes, cheia de ilhas e mangues, cidade que corre no meu sangue, cidade da minha infância, da minha família, da inovação musical e da indiscutível musicalidade que amo, cidade do Marco Zero e cidade multicultural: do frevo, do maracatu, do côco, da ciranda, caboclinhos e muito mais. Cidadezinha querida por todos aqueles que visitam, pois sempre querem voltar para sentir novamente boas sensações… como estar no mais antigo mercado público (Mercado São José) uma rara arquitetura de ferro, onde encontramos de tudo que é tradicional; passear pelas belas pontes; ir a museus; a casa da cultura; ao marco zero; a região portuária e sem falar que é bem pertinho de outra cidade encantadora… aquela cheia de ladeiras e casarios todos coloridos e antigos onde encontramos vários ateliês, e que tem um dos pontos de vista melhor do estado, onde tu come tapioca apreciando aquela beleza.

“Salve! Oh terra dos altos coqueiros”

Cidade que há em mim… minha “Veneza Brasileira”

Cidade Dois Mil e mais miríades de cidades

Janeiro 29, 2008

Tenho esta cidade em mim. Dia inteiro, madrugada afora. Recantos, desencantos, encontros e reencantos com as luzes. Abraços aconchegantes de sol ardente, beijos de chuva abençoada no meu rosto.
Pessoas na fronteira desta cidade em mim com a cidade que também é minha e de todos. Muros altos eletrificados, muros invisíveis de ignorância armada. O hálito quente dos ônibus, o corra ou morra das avenidas. Das janelas, nas vitrines vejo-me cidade, reflito-me cidade, sinto-me cidade. Cidade Centro, cidade Iracema, cidade Benfica, cidade Aldeota, Cidade Dois Mil e mais miríades de cidades que ainda hei de me encontrar por aí.

“São São Paulo, meu amor!”

Janeiro 28, 2008

Descobri que sou São Paulo.

Não moro nela, sou ela.

Pensava que ela havia me gerado em seu útero, que havia aprendido a viver com ela, mas não, meus gestos são os gestos dela.

Quando garoa, é dia normal. Quando chove forte, é tristeza e preocupação. Quando o asfalto queima, é inquietação. Quando o sol e as nuvens ficam em harmonia no céu, é felicidade.

Nunca paro, durmo mal, acostumei com o trânsito (que trânsito, se não se sai do lugar!?) impossível, não saio da avenida Paulista, sempre em cinemas e shows, não tenho carro, não tenho dinheiro, tropeço na calçada sempre, reclamo do pronto socorro (três horas na fila), sou estressada, vivo em ônibus lotado caindo aos pedaços (isso quando tem ônibus!), pago impostos até morrer e, quando passo uma semana longe de tudo isso, sinto falta de ar, me dá agonia, uma sensação de perda, e não vejo a hora de voltar. Clássica paulistana!

Sou onde vivo, vivo onde sou.

São Paulo, parabéns por mais um ano de vida e que venha saúde, educação, moradia, empregos, oportunidades, condições de vida adequadas…

Rotina

Janeiro 28, 2008

Risadas, conversas.

O som do trilho,

A luz forte e fraca.

Roqueiros, baladeiros.

A leitura interessante,

O apito chato.

Olhares, suspiros.

As pernas balançam ansiosas.

Um telefone toca:

- Alô?

A chuva (finalmente) bate no vidro.

- Que som alto!

- Parece música ambiente!

Agora as risadas são forçadas,

Não tem mais graça.

Alguém olha para mim,

Quer saber o que estou escrevendo.

Não interessa, sabia?!

Bolachas são comidas,

Ouço o barulho do pacote.

O vai e vem.

Instrumentos, malas.

Rotina.

cidaDela

Janeiro 25, 2008

O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”.
Oswald de Andrade

Olho no espelho meu corpo. Há muitas marcas, curvas, sinais.
Ela está deitada ao meu lado, cabeça apoiada nas mãos como um felino. Olha meu olho pelo espelho e gosta de se ver refletida nele. As tatuagens, as sardas, tudo meu lhe é familiar. Fala de mim com um conhecimento de causa que chega a ser perturbador. “Olhe, sua cicatriz cresceu”, como cresceu, respondo, cicatrizes não crescem. Crescem sim, crescem sim, ela cantarola com os olhos fechados por causa da claridade do quarto. De repente salta da cama como se tivesse molas nos membros e pega uma caneta para quadro-branco em cima da mesa.
Eu olho.
Mais uma vez ela se viu refletida nas minhas pupilas. Vi na escuridão de vários eus que ela sorria.
Ela fez da minha pele nascer ruas, avenidas, uma ponte de madeira que ia de um ombro a outro, um fértil vale entre os seios, um aglomerado de casinhas na barriga, meninos brincando em torno do umbigo, perto de uma placa de PERIGO, POÇO PROFUNDO, uma parada de ônibus nas costelas, trilhos nas pernas com ponto final na ponta do dedão, uma zona rural inteirinha nas nádegas com direito a vaquinhas e cercas, uma estradinha sinuosa que levava à casa grande construída nas minhas costas, fundada entre as espáduas.

Cidadalma

Janeiro 25, 2008

Na minha cidade se tu procurar a cada dez minutos acha um sorriso.
Tolo é quem encara “Tudo bem?” como uma pergunta e não uma saudação.
Os faróis geram flashes cintilantes que tornam o viaduto do gazômetro em faixas multicores.
Faixas coloridas também são traçadas pelos transeuntes da Rio Branco.
A Rio Branco ferve de segunda a sexta.
É no final da rio Branco que você encontrará o Teatro Municipal, a câmera dos Vereadores e o Odeon.
Foi há uma semana atrás que conversando com um amigo do nordeste descobri que realmente falamos chiado. Tchiatro Municipal, entende?
Foi semana passada que descobri que perdendo um amor, se re-encontra vários amigos e ai a gente quer as coisas simples da vida, como conhecer o Bairro do Horto e comer caldo de feijão. E a dor ajuda a desabrochar pra vida.
”A vida é rápida meu filho”, falou minha avó quando fez 88 anos.
O Bairro do Horto é próximo ao Jardim Botânico e o Jardim Botânico é um jardim e um bairro ao mesmo tempo. A Clarice Lispector tem um conto chamado “Amor” que fala dele e do efeito das jabuticabas no chão. É deste jeito: tudo colorido. Mas e a violência dos jornais? Tem! É um mal do mundo moderno. Mas têm também projetos culturais no morro do Pavão, tem uma galera fazendo cinema na favela, documentários que servirão para a história. Tem tchiatro amador. Ahh tem também crianças lindas, excursões ao Jardim Zoológico e ao Bondinho. Minha cidade-alma tem esgotos e tem jardins, tem amores perdidos e amigos reencontrados, tem valores onde jamais fora vistos, tem suingue, balanço e na fé do dia-a-dia encontro a solução. Quando bate a saudade vou pro mar

Dança

Janeiro 25, 2008

“é assim como uma música parada sobre uma montanha em movimento” … adriana (a que sente coisas) imagina…
assim como ela, como nela, há lugares em mim que não sei bem como descrevê-los – decifrá-los.
acho que é meio assim: não-lugares que deixam sempre a sensação de já ter estado ali. com gentes que, como num passe de mágica, se despem de seus pudores e criam motivos para flutuar livremente – só tomam cuidado quando nuvens anunciam: “o ar hoje está meio pesado… cuidado com as andorinhas mais novas, estão muito maravilhadas com toda a novidade da vida por aqui”.
mas mesmo com toda a teimosia dos cabelos das moças (que dançam fazendo com que as notas musicais escorram) a vida segue…
… ora faz sol, ora faz medo, e ora! o mundo inteiro parece gritar e rir de tanto temor do desconhecido passado.
o futuro por lá (aqui) é quando um chinelo novo encontra uma criança a fim de colocá-lo pra depois largá-lo sozinho (numa brincadeira de “pega-pega”) e depois achá-lo novamente.
sonha. corre. brinca. imagina. some. encontra. confunde tudo. mas ama, acha lindo, e espera… o próximo caminho a ser inventado em direção às estrelas.
ah… as cidades que não conhecemos!

Pulava até o céu e voltada pra calçada, de onde ela não fugia

Janeiro 13, 2008

Ela vinha intacta. Invariavelmente. Seu corpo delgado balançava em cadência sobre sua perninhas finas. Uma orelha pendia mais pra um lado que pra outro e dos olhos saíam dois raios de alegria. Espumante. Corria uma légua inteira e não saía do lugar. Pulava até o céu e voltada pra calçada, de onde ela não fugia. O mundo era ali, dois minutos frente aquele meio metro de cimento batido em declive. De longe eu via seu rabo finíssimo que balançava sem fim.

calçada

Janeiro 11, 2008

sentava lá toda tarde

lá.

Janeiro 7, 2008
as luzes mudam três vezes ao dia. o sol da manhã pousa os melhores raios, o calor mais vibrante. o movimento intenso de passantes lembra a caminhada, o primeiro dia de escola, a labuta bendita, a feira, o almoço a preparar. o início da tarde traz a preguiça, um vazio que impera em solidão. a quentura do dia se concentra lá, teimosa e displicente. a brisa fagueira do fim de tarde seduz ao encontro. a confluência da tarde com a noite é chamamento para a velha prosa, para compartir os acontecimentos diários, para despedidas intermináveis. a brincadeira das crianças se concretiza lá. a amarelinha é desenhada como no pensamento, a corda estala estridente e a bola rasteja-pula quicando. lá também é endereço do namorinho de portão, inocente, sabido e brejeiro. risadas, gargalhadas, constatações, afetos, puxões de orelha, manifestações de apreço e gentileza. na calçada. nas calçadas.