Sentada na calçada de casa, viu a noite chegando devagar. Precisava de um amor. Comia um picolé pardal sem gosto, pensando aborrecida no ano que terminava. Nunca havia se sentido tão só, e descobriu do pior jeito que você pode ter muitos amigos, um trabalho honesto e uma boa família, mas um amor sempre faz falta. Por mais que saiba se virar só, mulher tem mesmo essa necessidade boba de ter alguém pra ligar quando o carro der defeito, mesmo que tenha na carteira o número do seguro veicular. Pra ligar quando todo mundo resolver sair pra beber até cair pela décima quinta vez seguida, enquanto você só quer comer tapioca em algum lugar simples.
Sentada na calçada de casa ela resolveu desistir. E por ironia do destino ou não, quando ela tirou os olhos do esmalte gasto pensando em chamar a manicure urgentemente, viu que de longe, em outra calçada, tinha alguém na mesma posição, a mão no queixo e a outra segurando um picolé pardal, os olhos nas unhas, cabelo solto e uma blusa da cor que, junto com a sua, fazia a sua combinação de cores preferida. Seríamos verde claro com laranja, pensou.
Foi aí que ela voltou a acreditar.
Dezembro 21, 2007 às 4:02 pm |
Adoro ler palavras q me fazem ver nitidamente uma cena,é como se fosse um filme. Juro que vi tudo do começo ao fim.
Dezembro 22, 2007 às 2:44 am |
bonito.
mesmo.
Janeiro 5, 2008 às 11:45 pm |
nossa! essa menina escreve muito bem! ela me lembra a clarice lispector!